O cachecol de pele de algum bicho em extinção rodeava a goela da madame loira, enquanto a madame morena puxava as pontas do cachecol com força descomunal. A madame loira já estava com o olho vermelho, a pele meio roxa e pálida, quando ela consegue dar uma cambalhota e cai por cima da madame morena. A madame morena dá um puxão no vestido de seda da madame loira, e deixa a polaca com os seios expostos. Já de pé as duas, a madame loira calçando um “salto alto” pisa sem dó no pé da madame morena. A morena por sua vez, pega um elegante senhor e graças a sua força descomunal joga o fracote sobre a loiraça madame. A madame loira apela pra baixaria, começam a se estapear, uma fica puxando o cabelo da outra. A morena pega o martelo e dá no meio dos dentes da loira, que obviamente fica banguela. A loira transfigurada em ódio, tenta morder a morena, em vão, já não tinha os dentes da frente. O leiloeiro indignado puxa o martelo da mão da morena, volta pra bancada, e bate o martelo no púlpito, e grita, Picasso vendido pra madame ruiva. A morena e a loira se entreolham, e correm pegar a ruiva no cacete.
sábado, 19 de setembro de 2009
A Luta, parte I
Já estavam se tapeando. Um deles, o De vermelho estava com um chumaço de cabelo do Outro na mão, o Outro por sua vez batia com um abajur na cabeça do De vermelho. O De vermelho socava a cara do Outro enquanto esse cuspia sangue na cara do De vermelho. O De vermelho, era bem mais forte, e jogou o Outro em cima de uma mesa de vidro. O Outro pegou um dos pés da mesa, e como um taco de beisebol, bateu nas pernas do De vermelho. O De vermelho, vermelho de raiva, pega um microondas e joga no Outro. O Outro rebate o microondas, mas ele cai em cima do seu pé. O De vermelho debocha. O Outro pega um mouse de um PC e tenta enforcar o De vermelho, e o De vermelho tenta afogar o Outro na privada sem água. O Outro finalmente pega alguns CD de software e começa a lançar no De vermelho. O De vermelho já fatigado, desmaia. O Outro vitorioso pega a impressora DeskJet de tinta, vai até o Caixa. O Caixa emite o carnê das Casas Bahia, o Outro paga a primeira prestação, e vai embora.
O Homem do Tempo
Era um prostíbulo, vulgo puteiro, numa esquina qualquer duma cidade qualquer, num planeta qualquer. A fachada da zona, feita por alguém qualquer, indicava a programação, que por sua vez era permitida apenas para maiores de dezoito anos. Foi naquela noite, uma noite instigante, no mínimo fria. Um homem com seus 30 e poucos anos, barba por fazer, tatuagem de demônios mortos, cabelo até a cintura, jaqueta de couro, estampada com um símbolo de motoclube (era do clube “Hell is a Starting”). A noite não era mais uma criança, agora é um jovem na puberdade. O figurão não iria aprontar sozinho, trazia mais doze doidões. Um mais louco que o outro, alguns com seus litrões de vinho. Um dos barbudões chegou chutando a porta. O líder do clube gritou: - Vai com calma aí. E entraram no Pantanal. Lá dentro, gozado, uma cena peculiar, as profissionais meio que tristes. Os clientes, cada um no seu canto. Um ou outro sentado num cantado do bar com uma prostituta, desabafando. Outro olhava pra aliança, enquanto se estampava na cara um arrependimento eminente. Num outro canto dois clientes, abraçados, como se fosse amigos de infância, desabafando feito crianças. Os treze motoqueiros na entrada do bar, olhavam com espanto para essa cena. Uma puta no palco chorava, sozinha. Os treze que foram pra curtir, assumiram a postura de palestrantes motivacionais e abordaram cada cliente do puleiro. Começaram a trocar idéias, falaram do Caminho das Índias, de cinema, livros, música, artes plásticas, filosofia, sociologia, física quântica, sexo, família, política. Foi uma verdadeira Sessão Nostalgia. Todo mundo conversando sobre alguma coisa. Já eram cinco da manhã. Sem sacanagem. As profissionais vestidas, falando sem falar, os clientes casados foram embora juntos, planejando meios de reanimar o casamento, cada qual pra sua casa, tinha um religioso que estava desde cedo lá e foi embora de fininho. O barman disse que compraria uma moto e faria parte do clube, as prostitutas juraram de pernas juntas que iriam manter uma relação de amizade com os motociclistas. O líder foi assassinado tempos depois em algum lugar, não se sabe onde, não se sabe quem o matou, não se sabe nada. A chuva começou a cair naquele lugar, agora era chuva e frio. O crepúsculo deu lugar as nuvens escuras da chuva, que por sua vez deu lugar às luzes dos postes de lâmpadas de tungstênio das avenidas vazias e molhadas, habitadas por fantasmas e mendigos.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
O Mendigo (crônica quadridimensional)

"Foi se o tempo em que o tempo eram tempos". Disse o Balconista do McDonald's, de pé, atrás da máquina registradora, contando os três minutos restantes para o fim do expediente. O restaurante ainda repleto de almas. Cada qual com seu big mac, cada qual com seu copo de Coca-Cola cheio de gelo. No entanto, aqueles três minutos já haviam passado fazia (faz, o tempo depende de você) um longo tempo, mas o relógio marcava três minutos ainda. Obcecado pelo fim do expediente deixou de notar tudo congelado ao seu redor. O hambúrguer no meio da trajetória para o chão. O cliente diagonalmente tropeçando no meio do restaurante. O cliente de terno marrom com a boca cheia e uma cara engraçada. Os pedaços de pão que saiam da boca do gordinho enquanto falava com sua mãe. A mensagem na maquinha do Mastercard que dizia "saldo insuficiente". A barata saindo de dentro da máquina de Coca-Cola direto para o copo. Todos pareciam manequim. Tudo congelado, menos o balconista, perplexo diante de tudo. O Balconista sabia que sua máquina registradora era a máquina do tempo, cada centavo dela atravessa o universo e rompe o buraco negro do tempo. Além do infeliz Balconista, mais duas coisas seguiam seu curso temporal naturalmente: a fumaça do cigarro de um homem magro e a televisão que anunciava a morte de um certo rei . O relógio na parede tinha os ponteiros congelados.
O tempo havia parado, entra pela porta da frente um mendigo, trajando um paletó rasgado e roto, um jeans surrado, uma bota de morsa, cabelos até o joelhos, vinha gingando lentamente em direção ao Balconista. Tomou da mão de uma velha obesa o copo de Coca-Cola e tomou em um gole só. Mirou o Balconista, e cheio de dentes na boca lhe disse, venha junto, agora mesmo, em cima de mim. O Balconista com a sensação que estava em um cinema 3D, puxou do bolso um cigarro, e ali mesmo acendeu, e como no DeLorean do De Volta para o Futuro, digitou na máquina registradora o ano em que estava e os três minutos restantes para o fim do expediente e registrou. Voltou ao tempo que estava. Enquanto no museu o mendigo observava essa pintura surreal como dum quadro de Salvador Dalí. No entanto, não havia nenhum balconista na pintura.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Sertão Elétrico (crônica urbana)

Cada fio de luz, cada poste, cada farol, o corpo do moleque no chão, ainda com um fio de vida, olhava pra cada coisa que despertava sua nostalgia pelo sertão. Mesmo que cada disso, cada condutor da modernidade estivesse longe da verdade daquele sertão no qual nunca viveu. No entanto, cada pessoa que contemplava aquele espetáculo macabro, o da morte do moleque, refletia uma sensação incomum de alívio, por não ser si naquele chão asfáltico e morto. O guri agonizava, enquanto nas televisões, comerciais. Nas rádios, vinhetas. Nos jornais, classificados. Nos becos, crianças drogadas e desnutridas. E naquela avenida, em que o moleque sufocava, cactos gigantescos de pedra, espinhosos como o do sertão. O círculo em volta do menino era composto por rostos e faces maquiavélicas, longe dos sertanejos euclidianos e dos retirantes gracilianos. Eram consumidores do desespero de uma liquidação nas Casas Bahia. Enquanto, o guri já morto, a cidade se dissolvia em veredas, os prédios secavam como juazeiros, os veículos se mutavam em urubus, as praças em matas virgens, e os postes de tugstênio se metamorfoseiam no luar do sertão, e já não há tempo, só o canto noturno sertanejo em volta da ossada do guri.
sábado, 7 de março de 2009
O Comunista Consumista (Crônica)

Aos quinze anos já havia lido Marx. Com dezesseis conhecia a obra completa de grandes nomes da música erudita. No quarto, ao invés de bandas de rock e pop, um imenso cartaz do Che. Planejava que teria três filhos: Vladimir, Ernesto e Fidel. Graças as cores da bandeira comunista torcia para o Sport Club. Com dezoito já não fazia a barba nem cortava o cabelo. Quando mais jovem amarrou o braço direito por um ano para ser um autêntico canhoto, no entanto não deu muito certo. No braço esquerdo tatuou o símbolo comunista. Tudo mudou aos dezenove. Seu pai tomado pelo espírito burguês e mais inocente que criança, lhe deu um I-Pod de 120GB. O guri demorou um mês pra tomar coragem e ligar o objeto demoníaco. O aparelho tinha uma capinha vermelha. Depois que ligou pela primeira vez, escutava o dia inteiro. Rock N’ Roll, música que defeca no sistema.
O destino, sacana, é um gordo feio que nos dá o mapa errado. O fone do aparelho arrebentou. Pela primeira vez entrou numa loja de eletrônicos. O guri refletia um ser sagaz, mas naquele dia, o que refletiu em sua retina foi um console de videogame de frente cromada. Além do fone, levou o Playstation. No entanto levou sob o pretexto de que jogaria apenas um jogo. Aquele do ladrão de carros que buscava conquistar um território, e para isso enfrentava a ordem política e social do capitalismo. Mas como não tinha TV, seu pai se encarregou de lhe dar uma de cinqüenta e poucas polegadas. Para encaixar a TV na parede do quarto teve que arrancar o cartaz do revolucionário. O sistema da TV era interessante. Bloqueou canais como a Globo, SBT , Record, canais religiosos. Ainda tinha ideais. Era um comunista ainda. Lia todos os dias um capítulo de “O Capital”, no I-Pod em formato e-book. A ruína foi quando bateu uma fome do cão, lá no centro da cidade. Olhou para os dois lados. Não havia opção. Pediu um big mac com Coca-Cola. Aí meu camarada, a casa caiu. Ou melhor, o muro caiu.
O destino, sacana, é um gordo feio que nos dá o mapa errado. O fone do aparelho arrebentou. Pela primeira vez entrou numa loja de eletrônicos. O guri refletia um ser sagaz, mas naquele dia, o que refletiu em sua retina foi um console de videogame de frente cromada. Além do fone, levou o Playstation. No entanto levou sob o pretexto de que jogaria apenas um jogo. Aquele do ladrão de carros que buscava conquistar um território, e para isso enfrentava a ordem política e social do capitalismo. Mas como não tinha TV, seu pai se encarregou de lhe dar uma de cinqüenta e poucas polegadas. Para encaixar a TV na parede do quarto teve que arrancar o cartaz do revolucionário. O sistema da TV era interessante. Bloqueou canais como a Globo, SBT , Record, canais religiosos. Ainda tinha ideais. Era um comunista ainda. Lia todos os dias um capítulo de “O Capital”, no I-Pod em formato e-book. A ruína foi quando bateu uma fome do cão, lá no centro da cidade. Olhou para os dois lados. Não havia opção. Pediu um big mac com Coca-Cola. Aí meu camarada, a casa caiu. Ou melhor, o muro caiu.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Fale Conosco (Crônica)

“Vinte anos, vinte anos, era uma vida. Segundo grau completo. Tinha curso de datilografia. Uma bela geladeira, um fogão respeitável. Um carrinho quitado. Três guris. Uma linda esposa submissa. Poucas contas a pagar. Poucos e fiéis amigos. Humilde casebre de madeira. Vigia numa escola, um salário pequeno, mas digno. Mês que vem pegaria primeira parcela do ‘décimo’, ano que vem talvez me aposentasse. Ia dar um computador pros guris. Por uma TV no nosso quarto. Os meninos tinham ganhado roupas novas, e minha esposa um vestido pra ir aos cultos da igreja, no sábado. No congelador, tinha um suculento filé pro domingo. Sexta-feira começou a chover. Sábado mais chuva. Domingo eu não tinha mais nada. Agora faz uma semana. Meu Deus. Perdi tudo, tudo. A casa apodreceu. As roupas novas se encardiram. O carro perdeu o motor. O filé ficou com suco de água barrenta. Os brinquedinhos dos guris se foram com a correnteza. E o pior, minha esposa e meu guri do meio se afogaram, e morreram. Somos três agora. Temos apenas um ao outro. E nossas roupas do corpo. Mais nada. Mas o pior está por vir. Recomeçar. Sem emprego, sem esposa, menos um filho. Ajude-nos, por favor”. Assinado por João e seus filhos.
João deixou essa carta na caixa postal de uma empresa multinacional de renome. Um mês depois, sem resposta, João encontrou a carta na lixeira da empresa. João tava atrás de comida.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Velho Noel (Crônica)
Na calada noite, o velho Noel tragava um charuto cubano em frente ao seu PC. Baixou uns filmes pornográficos. E o copo de uísque estava quase vazio.
Fazia alguns verões que não trabalhava. Sua renda provinha dos royalites do uso de sua imagem e de seu nome nessa época do ano, o [infeliz] natal. Uma renda invejável até para mafiosos capitalistas [a geladeira do Noel, estava lotada de Coca-Cola]. Empresas pagam milhões, bilhões de dólares para falar do velho barbudo, que agora, está aposentado, e morando lá na Bahia. Abandonou por completo aquela vida de bom velho. Abandonou as renas. Vendeu o trenó. A roupa vermelha ele usa de vez em quando, em festas à fantasias. Desde que enviuvou, aparou a barba, fez umas tatuagens, e desde o último verão deixou o cabelo crescer e comprou uma Harley. Começou a frequentar um terreiro de umbanda lá em Salvador. Lia muito Jorge Amado também.
Ainda com o copo de uísque vazio, o telefone toca. Era seu advogado. Dizia que agora que os Estados Unidos elegeu seu primeiro presidente negro, começaram a surgir pelas ruas e tevês versões negras do velho Noel. Dizia que havia até um vídeo no Youtube.
O velho Noel ficou vermelho. Pensou, pensou. Era inconcebível. Para esses novos Noéis, o royalite seria o dobro, o triplo. Que mundo louco, só falta aparecer um James Bond negro , repetia o velho Noel indignado. Mas sua indignação não era por racismo, abrenúncio, morava na Bahia. Era por questões meramente estéticas. O negro Noel não era mercadológicamente vendável, dizia o velho. Mas o advogado insistiu no contrário. Argumentou que era até bom, a sociedade havia mudado, e tal. A equipe de marketing já havia pensado na alteração também.
Mas agora, o velho Noel só pensava em encher o copo do uísque e assistir seus filmes.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
O Fim do Mundo (Conto)

Na surdina da noite, estava viajando para o interior, fugindo da vida, fugindo dos cobradores, dos telefonemas, da internet, da televisão e de mim mesmo. Uma semaninha, uma semana só. A única ponte entre eu e a sociedade, decidi, seria a música. A música é pura, o som é inocente, inofensivo, pensei.
A estrada era longa, e lá estava eu. Livre. Curtindo Pink Floyd, aprendendo a voar. Após algumas horas de viagem a civilização estava longe. A paisagem caótica e urbana se transformou num lugar bucólico e rural, grandes pastos, campos sem fim, algumas vilas e pequenas casas.
Já cedo, no meio do nada, lá pelas oito horas, encontro na rua multidão de nativos, desesperados, como fosse o fim do mundo, alguns estavam caídos no chão, outros prostrados de joelhos com as mãos estendidas ao céu. Não compreendi. Perguntei a um morador o que havia ocorrido. Ele comentou que deu ná rádio, que marcianos estavam invadindo a terra. Não levei a sério. Aquilo estava parecendo um teatro.
Dei as costas e parti em direção ao nada. Quando eu já havia escutado todos os meus discos, não resisti e liguei o rádio. E de fato, o morador não mentia. As rádios, todas elas, davam manchetes de horror e caos. Remontei ao passado, e a cena então tornou-se familiar. Ano de 38. O caos domina os Estados Unidos, através de uma transmissão de rádio. A Guerra dos Mundos. Orson Welles. Milhares de pessoas em completo estado de pânico. Suicídios. Marcianos.
[Orson Welles, nesse ano, demonstrou o supremo poder do humilde meio "rádio", sendo a ação midiática de maior força da história. Welles, em 41, surpreende novamente. Desta vez, com o filme Cidadão Kane, o mais importante filme da história do cinema, que relata o poder da mídia, com veracidade.]
Continuei a viagem fantástica, e é lógico, desprezei as rádios. Era alguma ação de guerrilha, sei lá.
E por cada vila, por cada vilarejo, cada fim de mundo, gente desesperada. Como explicar que aquilo era uma rádio novela, uma publicidade talvez. Nesse lugar, a rádio é a religião e seus fiéis eram fanáticos. Eram tolos, ignorantes.
Mudei de opinião quando um disco voador foi abatido por um caça americano, diante dos meus olhos.
E por cada vila, por cada vilarejo, cada fim de mundo, gente desesperada. Como explicar que aquilo era uma rádio novela, uma publicidade talvez. Nesse lugar, a rádio é a religião e seus fiéis eram fanáticos. Eram tolos, ignorantes.
Mudei de opinião quando um disco voador foi abatido por um caça americano, diante dos meus olhos.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
O Caminho da Felicidade (Crônica)

— Pois saiba que você é uma loiraça e tanto!
— Aiii, você acha.
— Pois te garanto.
— Aiii, obrigada.
— O que acha dessa festa?
— Aiii, desculpe, não escutei.
— O que acha dessa festa? - gritava o mulato.
— Muito boa! - gritava a loiraça.
A música rolava alto na festa, e que festa. Era lá no bar do Nonô.
Numa mesa de sinuca, fora do bar, dois cabras comentavam:
— Bichô, que festaréu, quanta mulhé, só tetéu.
— Pô bicho, as mina até parecem de Hollywood, e cá entre nós, os bofes também!
— E pelo jeito a festança vai durar, não?
— Nunca vi mulher tão arrumada pra festa, mermão. Olha a maquiagem das cocótas.
— Olha as saias das minas, locô.
— Meu amigo, olha os decotes.
Enquanto isso na festa, a cerveja rolava solta, descia redonda. Estranho é que só tinha cerveja, mais nada. Pois não é que os convidados pareciam artistas de Hollywood. As cantadas que eles davam, ô, deixavam Shakespeare no chinelo:
— Pois, você sempre vem aqui?
— Sim, sim.
— Que música boa, né?
— Latino, ai, eu gosto de Latino.
— Grande músico, mas prefiro Gretchen.
E em cada canto do boteco, festa, e em cada mesa, pessoas incrivelmente lindas.
E uma voz lá no fundo, no auge da festa, grita:
- Corta.
**
Finalizadas as gravações, Edmundo, o diretor dos comerciais, foi até o estacionamento, com um olhar de alívio ao ver sua Hilux, foi pra casa, bela casa. O dia estava lindo, o crepúsculo maravilhoso. A família radiante. Ao passar a porta, como um clichê hollywoodiano:
— Querida, cheguei!
Nesse instante, seu filho vem correndo, abraça-o, e em seguida sua escultural esposa. Trocam umas palavras:
— Que dia.
— Querido, vamos tomar o café da tarde?
— Claro amor.
Na mesa farta, Edmundo pega o pote de margarina, faz um comentário bobo, o filho e a esposa sorriem, quando lá do fundo alguém grita:
— Corta!
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
O Som do Alazão (Crônica)

Meia-noite e quarenta. Peguei meu Marlboro. Não conseguia dormir, apanhei o controle remoto da TV, passava o Programa do Jô. Do 12 fui pro 7, passava Fala Que Eu Te Escuto, eis um programa realmente autêntico. As melhores pessoas da nação assistem a esse programa, as melhores pessoas participam desse programa, não precisam fingir o interesse por uma conta no Banco Itaú, não usam pilhas Rayovac por determinação de um contrato, mas são infelizes.
Minha vontade de fumar repuxava os nervos da minha boca. Resisti por pelo menos uns dois dias. Também pudera, na TV ninguém mais fuma, e isso me enoja, só os vilões fumam, e isso também já é raro. Agora as únicas drogas que os mocinhos usam são cremes Natura, tintas pra cabelo L'Oreal. E o cigarro me instigou a ser diferente. Odeio ser igual a TV. Cada canal que eu passo um bando de autômatos contracenando, vendendo suas almas ao carcará. agindo através de um roteiro, e nem um cigarrinho sequer.
O Jornal Nacional, meu Deus, é muito bom, ele impõe e ensina-me um modo de ser e pensar, todas seus intervalos comerciais me persuadem, visto que eles são os mais belos, os mais caros e os mais importantes, é SENSACIONAL.
Minha atenção para com a TV é tanta que depois que eu desligar o televisor, vestirei uma camiseta verde de material reciclável, comerei apenas vegetais, meus talões de cheque, queira Deus, serão de papéis reciclados. Deus, que meu Opala não aqueça o globo, que meu cigarro não seja poluente, que meu avião seja um alazão igual ao cavalos do Hollywood. Dormi.
Minha vontade de fumar repuxava os nervos da minha boca. Resisti por pelo menos uns dois dias. Também pudera, na TV ninguém mais fuma, e isso me enoja, só os vilões fumam, e isso também já é raro. Agora as únicas drogas que os mocinhos usam são cremes Natura, tintas pra cabelo L'Oreal. E o cigarro me instigou a ser diferente. Odeio ser igual a TV. Cada canal que eu passo um bando de autômatos contracenando, vendendo suas almas ao carcará. agindo através de um roteiro, e nem um cigarrinho sequer.
O Jornal Nacional, meu Deus, é muito bom, ele impõe e ensina-me um modo de ser e pensar, todas seus intervalos comerciais me persuadem, visto que eles são os mais belos, os mais caros e os mais importantes, é SENSACIONAL.
Minha atenção para com a TV é tanta que depois que eu desligar o televisor, vestirei uma camiseta verde de material reciclável, comerei apenas vegetais, meus talões de cheque, queira Deus, serão de papéis reciclados. Deus, que meu Opala não aqueça o globo, que meu cigarro não seja poluente, que meu avião seja um alazão igual ao cavalos do Hollywood. Dormi.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Fora de casa (Crônica)

O caminho até o tubo do ônibus era longo. Eram sete horas. Os postes oscilavam. Carros Ford, Chevrolet, Volkswagen, Fiat. Toda sorte de veículos. Cada qual com sua logomarca próximo ao capô e ao porta-mala. Os donos desses veículos mal sabiam que estavam servindo de veiculadoras para essas marcas, símbolos do capitalismo. Além de tudo quem paga pelo anúncio é o próprio dono. da caranga. As anunciantes não se incomodam nem um pouco. Não necessitam de Pedidos de inserção, a duração da veiculação é ilimitada e imperecível. Não estão sujeitas as ações do tempo. Os carros são verdadeiros outdoores. Eles são funcionais, belos e atraentes. Um baita dum outdoor, dos tradicionais, anunciava que os cavaleiros do apocalipse estavam chegando, e nele um relógio gigante registrava uma contagem regressiva. O relógio marcava seis dias, quatro horas, vinte minutos e os segundos ainda. Os cavaleiros do apocalipse querem tornar a cidade limpa, com inevitáveis contradições.
Na minha jornada percebi que os próprios transeuntes são mídias, com seus tênis Nike, camisetas Levi's, calças Armani, bolsas Victor Hugo, óculos Ray-Ban, latas de Coca-Cola na mão, perfumes Dior, cuecas Calvin Klein, lingeries Victoria Secret's, IPod. Não exitam em falar da marca do perfume quando indagados, pagando por isso também. Percebi também que o próprio asfalto que eu pisava era uma mídia do Estado (o tal do meio é a mensagem do McLuhan). Ainda mais, o maço de cigarro amassado no chão é o modo das grandes companhias do tabaco burlar a legislação. O chão é a mídia. O mundo é a mídia externa, a grande mídia out of home. O poder da Clear Channel é reles. JC Decaux é reles. As mídias que são controladas por essas empresas é pó perto do poder midiático do homem. Finalmente cheguei no tubo da Prefeitura Municipal de Curitiba, A Cidade da Gente, e enfim apanhei o grande Volvo vermelho com música clássica.
Na minha jornada percebi que os próprios transeuntes são mídias, com seus tênis Nike, camisetas Levi's, calças Armani, bolsas Victor Hugo, óculos Ray-Ban, latas de Coca-Cola na mão, perfumes Dior, cuecas Calvin Klein, lingeries Victoria Secret's, IPod. Não exitam em falar da marca do perfume quando indagados, pagando por isso também. Percebi também que o próprio asfalto que eu pisava era uma mídia do Estado (o tal do meio é a mensagem do McLuhan). Ainda mais, o maço de cigarro amassado no chão é o modo das grandes companhias do tabaco burlar a legislação. O chão é a mídia. O mundo é a mídia externa, a grande mídia out of home. O poder da Clear Channel é reles. JC Decaux é reles. As mídias que são controladas por essas empresas é pó perto do poder midiático do homem. Finalmente cheguei no tubo da Prefeitura Municipal de Curitiba, A Cidade da Gente, e enfim apanhei o grande Volvo vermelho com música clássica.
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